Aprendi com Tom Zé que a bossa nova pariu o Brasil.
Antes disso, além de exportar matéria-prima, sabia-se pouco sobre nossa música, sobre nós. Havia a incomparável Carmem Miranda –para muitos, a mãe do canto brasileiro -, havia o sucesso de Ary Barroso e seu trabalho como compositor e arranjador de Hollywood, que rendeu inclusive uma indicação ao Oscar em 1944 pelo filme Brasil, de Walt Disney, havia Aloisio de Oliveira e Vadico, mas o que fez a bossa nova –consequência deles e outros talentos como Pixinguinha, Noel Rosa e Chiquinha Gonzaga– é algo nunca realizado antes ou depois. Porque até hoje, em qualquer lugar do planeta, quando se fala em Brasil, lembra-se da nossa música e dela especificamente, nominalmente.
Governo nacional nenhum a transformou em bandeira de propaganda ou soft power como fizeram os Estados Unidos com o rock’n’roll e todo seu modo de viver: roupas, alimentos, drogas, transportes e rotinas. Com a bossa, foi tudo natural. De uma forma diminuidora, dizem que houve.
Se fosse apenas isso, os maiores jazzistas do mundo não a teriam adotado em definitivo. Não apenas suas melodias, seu swing –bem diferente do jazz–, mas também suas inovações e soluções harmônicas. Sim, ela tinha influência do jazz –e ambos beberam na música para concerto, entre outras fontes, como choro e blues–, porém a bossa chegou a soluções inéditas adotadas e estudadas por músicos mundo afora. Fosse apenas uma adaptação ou cópia, os estadunidenses a teriam tomado para si ou tentado apagar seus autores, como fizeram com o rádio, endeusando Marconi e apagando o Padre Landell de Moura; ou com o avião, desprezando o gênio Santos Dumont.
O que houve foi o inverso.
Com a chegada do rock como a nova música pop no final dos anos 50, de uma hora pra outra os artistas de jazz viraram “coisa do passado” e viram no Brasil um caminho, uma possibilidade, uma luz musical.
Louis Armstrong amava Pixinguinha. Quis conhecê-lo pessoalmente. Sinatra dividiu um álbum inteiro com Tom Jobim. Sarah Vaughan, Miles Davis, Ella Fitzgerald, Dizzy Gillespie… a lista de quem não gravou bossa nova é menor do que a lista de quem gravou ou foi influenciado por ela.
Curioso pensar que a bossa nova é mais nova que o rhythm’n’blues. E que esse gênero norte-americano permanece sendo renovado, abraçando novas tecnologias musicais e gerações até hoje.
Por que a confinamos a um banquinho e a um violão? Por que tem sempre alguém pra sacramentar “isso pode, isso não pode”; “se fizer assim, não é bossa”? Por que não podemos plugá-la na energia elétrica?
Por insegurança, arrogância, desejo de controle, preconceito, superproteção ou pulsão de morte, erraram a mão na poda. Só não acabou porque o mundo exterior não deixou de tocá-la, de estudá-la.
A bossa nova revelou de maneira despercebida um país imenso, semi desconhecido, com natureza, arquitetura, poesia, pintura, culinária, literatura, teatro, dança e ciência exuberantes. Sempre me intrigou e acendeu minha curiosidade o porquê de nos jogarmos fora quase todos os dias. Gostaria muito de ver o país acordar e descer do berço esplêndido.
A bossa nova foi um despertador. Que siga tocando. Um dia… quem sabe, né?
A Bossa Nova nasceu no Rio de Janeiro nos anos 50 e conquistou o mundo com sua harmonia sofisticada e ritmo envolvente.