Os principais queixumes vieram da velha guarda do samba. Moreira da Silva, implicou com o canto suave daquela turma, dizendo que era “música para filho de papai tuberculoso que não sabe cantar”; Padeirinho da Mangueira, por sua vez, criticou a maneira moderna de se fazer samba em Modificado. “Já não se fala mais no sincopado/ Desde quando o Desafinado/ Aqui teve grande aceitação?/ Eu também gostei daquilo/ Modificando o estilo/ Do meu samba tradição”, dizem os versos da composição, um morde-e-assopra no gênero. O jornalista e letrista Antônio Maria foi ainda mais virulento, chamando os bossa-novistas para um debate em seu programa de TV, Preto no Branco, em 1960, e atacá-los na sua coluna em O Jornal – era respondido, à altura, por Ronaldo Bôscoli, arauto do movimento.
Mas, verdade seja dita (e escrita), a bossa nova representa uma revolução social e musical no cenário brasileiro, um passo adiante do que foi muito bem produzido nas décadas anteriores. A gestação do gênero tem a ver, por exemplo, com o crescimento de Copacabana, hoje o bairro mais populoso da zona sul do Rio, e que nos anos 1950 testemunhou a mudança do cenário urbano. “O surgimento de Copacabana dentro de um boom imobiliário foi tão rápido que gerou uma coisa nova. O prédio de apartamentos representava a modernidade, não mais a velha casa de bairro com as famílias”, disse o historiador José Ramos do Tinhorão (1928-2021), em depoimento ao jornalista Zuza Homem de Mello (1933-2020), publicado no livro Copacabana, de Zuza. “Quem era o morador de Copacabana? Em parte, era o funcionário público que ganhava bem e tinha um cargo bom numa repartição”, reforça Tinhorão (que, aliás, nunca foi fã de bossa nova, achava que era “música americana”).
O povoamento de Copacabana foi propício para o aparecimento de cinemas, nos quais a atração principal eram filmes made in U.S.A. cuja trilha sonora era regada a jazz, e boates, que transformaram a vida noturna do bairro. De acordo com Ruy Castro em seu livro Chega de Saudade (uma das Bíblias do gênero) a região chegou a ter nada menos do que 43 mini casas noturnas, trazendo uma grande variedade de intérpretes e instrumentistas. Vale lembrar ainda que o Brasil dos anos 1950 viveria um grande momento econômico. O mineiro Juscelino Kubitschek (1902-1976) assumiu o governo do país em 1956 e, sob o lema “cinquenta anos em cinco”, impulsionou a indústria –especialmente energia e transporte–, elevou o PIB do país para 7 e 8% ao ano.
Os cabarés foram um termômetro da transformação pela qual a música estava passando. Nesses locais, o partido alto, gênero mais popular do samba, perdeu espaço para o samba canção, de andamento menos acelerado e com letras que falavam, principalmente, de dor de cotovelo. O estilo “estoura peito” dos canários de outrora foi caindo em desuso –seja pelo aprimoramento tecnológico dos microfones utilizados nas rádios e estúdios de gravação, que permitiam um canto mais ao pé do ouvido, seja pela popularização do cool jazz, estilo no qual a doçura fazia a diferença. Uma singeleza que se fazia presente nas gravações de cantores locais como Dick Farney (1921-1987) e Lúcio Alves (1927-1993) que, inclusive, tinham fãs-clubes. O Sinatra/Farney Fan Club foi criado em 1949, no Bairro da Tijuca, e reuniu bambas como Johnny Alf (1929-2010), Paulo Moura (1932-2010) e João Donato (1934-2023), ao passo que o Dick Haynes/Lúcio Alves Fan Club tinha acólitos nos bairros de Botafogo e Flamengo.
A bossa nova representa ainda a modernização da música brasileira. Qualquer gênero, nascido em qualquer outro país, passa por mudanças e assimila influências externas, criando um novo estilo de se fazer e pensar música. No caso da bossa, sua essência continua sendo o samba –algo que o violão de João Gilberto (1931-2019) deixa bastante claro. Mas antes do baiano de Juazeiro despontar com Chega de Saudade, de 1959, os já citados Dick Farney e Lúcio Alves, aliados a Tito Madi (1929-2018) e Agostinho dos Santos (1932-1973) tinham percorrido esse caminho da singeleza. Johnny Alf, o mesmo do Sinatra/Farney Fan Club era habitué das casas noturnas cariocas no ano de 1954, onde impressionou o público –e muitos bossa novistas da primeira geração– ao criar uma batida diferente ao piano.
O cool jazz, gênero surgido nos Estados Unidos nos anos 1940, foi a principal influência externa do gênero brasileiro. O modo suave com que intérpretes e músicos da categoria de Chet Baker (1929-1988) e Julie London (1926-2000) tratavam o seu repertório influenciou a maneira com que artistas como Roberto Menescal e grupos de samba jazz como Tamba Trio e Zimbo Trio e instrumentistas como Eumir Deodato e Durval Ferreira (1935-2007), além, claro, de Tom Jobim (1927-1994) e João Donato aprimoraram a harmonia de suas composições.
Um modo moderno e sofisticado de se fazer samba, a bossa nova foi sendo gestada em diversas frentes: nas boates de Copacabana, no musical Orfeu da Conceição, que reuniu pela primeira vez os talentos de Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes (1913-1980) e no apartamento de Nara Leão (1942-1989), onde os novos autores –entre eles Menescal e Carlos Lyra (1933-2023) – e intérpretes como Sylvia Telles (1934-1966) e Leny Andrade (1943-2023) iam em busca de prosa, música e inspiração.
Chega de Saudade (1959), de João Gilberto, é tido como o marco zero do novo gênero. Ele foi o estopim de trabalhos de artistas daquela geração –Tom Jobim, Menescal, Lyra etc– e de novos agregados (Sérgio Mendes, Marcos Valle, Francis Hime, Dori Caymmi, Joyce Moreno). A bossa despertou o interesse internacional, associando seu nome aos saxofonistas Stan Getz (1927-1991) e Gerry Mulligan (1927-1996), Frank Sinatra (1915-1998), Ella Fitzgerald (1917-1996), Sarah Vaughan (1924-1990). Nomes como João Donato, Marcos Valle e Sérgio Mendes expandiram as fronteiras desse novo samba, unindo-o ao funk, à soul music e à música eletrônica. A bossa nova virou “new bossa” na mão dos popstars ingleses –Sade, Matt Bianco–, foi adaptada por divas internacionais –que vão desde a cantora folk Suzanne Vega à jovem Billie Eilish– e nomes do jazz fazem uso recorrente do gênero brasileiro em seus trabalhos –os mais notáveis são a cantora e pianista Diana Krall e o guitarrista e cantor John Pizzarelli.
Os textos a seguir mostram como a bossa nova se criou, desenvolveu e se modernizou, e até hoje marca presença no cenário nacional e internacional. Seu repertório vai desde os nomes mais tradicionais até Roberto Carlos e uma geração de astros do novo pop internacional. A bossa foi política, criou um gênio do marketing (Bôscoli), influenciou movimentos como a tropicália e até hoje se mantém relevante. A bossa nova não tirou o espaço da música produzida no país –todos os artistas populares continuaram a fazer sucesso–, mas apresentou um cancioneiro globalizado a ponto de atrair a atenção de outros países. Sim, Padeirinho, “já não se fala mais naquele samba ritmo quente”, mas a bossa nova veio para modificar e ficar.
A Bossa Nova nasceu no Rio de Janeiro nos anos 50 e conquistou o mundo com sua harmonia sofisticada e ritmo envolvente.